Capobianco esteve no Seminário Preservação da Mata Atlântica
(22) e o Lendo e Relendo fez uma entrevista com dúvidas peculiares sobre o
assunto. João é biólogo, ambientalista e consultor, doutor em Ciência Ambiental
pela USP, foi Secretário Nacional de Biodiversidade e Florestas e Secretário
Executivo do Ministério do Meio Ambiente (2003 a 2008), quando exerceu, entre
outras funções, a vice-presidência do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Foi
professor visitante da Universidade de Columbia (2008 a 2009) onde desenvolveu
estudos de avaliação e identificação de processos capazes de conter o
desmatamento em países em desenvolvimento.
Fundou e dirigiu várias organizações não governamentais no
Brasil, incluindo a Fundação S.O.S. Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental
e é autor de diversas publicações sobre questões ambientais. Atua
principalmente nos seguintes temas: conservação ambiental, gestão ambiental,
políticas públicas, desmatamento e diversidade biológica.
Porque as empresas/pessoas não conseguem ter um
desenvolvimento regional totalmente sustentável?
A questão da sustentabilidade exige alguns ajustes no modo
de vida. E, as pessoas muitas vezes têm resistência a mudar, mesmo que você
avalie e perceba que a mudança é positiva, mudar gera desconforto e
dificuldades, trata-se de uma resistência natural do ser humano. Por isso que é
necessário incluir na perspectiva da sustentabilidade, a perspectiva da
mudança, comportamento próprios das coisas, pois aí você vai se ajustando, e
quando você olhar para trás vai pensar: “Poxa vida por que eu não fazia assim
antes?”.
No que a destruição da Mata Atlântica nos atinge?
Diretamente. Tudo depende da floresta, o ciclo das águas, o
clima, o controle do solo, o controle biológico que é importantíssimo para
combater as pragas da agricultura, para impedir o assoreamento dos rios, então
a Mata Atlântica é muito importante para isso, ela garante um equilíbrio onde a
gente possa ter mais qualidade de vida.
Quem está no Litoral é mais atingido do que nós da Serra
Catarinense?
Não, todos são atingidos, igualmente. Aqueles que estão em
locais mais preservados, hoje, tem muito mais conforto ambiental do que aqueles
que estão em lugares degradados.
O senhor acredita que os nossos governantes, na esfera local seja os
vereadores, prefeitos e até governadores estaduais estão mais próximos de
pensar sustentavelmente ou ainda não? Como você vê essa questão?
Olhando em geral, todos os lugares que eu vou no Brasil e
fora, mais especificamente aqui no Estado, eu acho que mudou muito, melhorou
muito. A resistência era muito maior, eu lembro quando nós começamos a luta
pela proteção da Mata Atlântica, Santa Catarina era um Estado líder em
desmatamento, e havia uma enorme resistência em não desmatar, e aqui ainda se
praticava o uso de espécies como a Araucária, a Canela, e outras espécies ameaçadas,
ainda se usava isso na indústria madeireira, o que era uma coisa inaceitável. Não
havia mais quase espécies a serem exploradas, havia muito pouco. E ao longo do
tempo a gente percebe como isso mudou, hoje é claro que há resistência, há
alguns setores que pressionam, mas hoje a agenda ambiental da conservação é
abraçada por quase todos, e isso é muito positivo, pois acabou mudando a
mentalidade das pessoas e dos governantes.
Então o que é necessário para mudar a visão das pessoas?
É preciso mudar as formas de ver as coisas, criar percepções
que são mais interessantes do ponto de vista econômico e ambiental, que é
melhor para as empresas preservar certas áreas do que fazer algum
empreendimento que pode trazer resultado a curto prazo, mas grandes prejuízos a
longo. Então se trata de um modo de ver as coisas, não se trata de sacrífico, é
uma forma de encarar as coisas diferentes, é uma forma de fazer as mesmas
coisas de forma adequada, com respeito a natureza, conservando-a. Por que eu
não posso ser um agricultor, e produzir bem, e proteger as minhas nascentes? Eu
posso, e pode ser melhor pra mim. É que as pessoas achavam que tinham que
ocupar tudo, desmatar tudo e plantar, não é assim. Não é sofrimento, eu não
tenho que mudar meus hábitos pra pior, é para melhor, ter mais coerência comigo
mesmo e com a natureza. É um ganho para todos.
Quem é o principal culpado das mudanças climáticas?
Somos todos nós! Não existe o maior culpado, poderia falar,
o Estados Unidos é o maior emissor, a China o segundo, mas não vale a pena ir
por aí. Se todos nós formos nos conscientizando, fazendo ações importantes, por
exemplo aqui, recuperarmos a Mata Atlântica que foi desmatada, imagina a
contribuição que nós estaremos dando. Vamos estar diminuindo, vamos parar de
emitir, essa é uma contribuição. Então, eu diria que todos nós somos culpados,
estamos em uma sociedade extremante consumista, a gente joga fora as coisas que
estão novas e isso gera produção, gera emissão. Todos nós devemos nos
conscientizar, e assim podemos cobrar aqueles, quando tivermos uma postura
adequada, ai podemos cobrar aqueles que mais emitem.
Na sua visão como será o mundo daqui a 20 anos?
Eu acho que vai ser melhor, eu vejo que o entendimento dos
problemas está aumentando na sociedade humana, e não só no Brasil. Como a
própria China, que se tornou uma época o maior emissor, eles estão investindo
pesado em energias alternativas, baixa emissão. Hoje são líderes de energia
eólica, estão mudando práticas. A Europa é quem está mais a frente, colocando
programas de mudanças completas na produção de energia. Há uma mudança, a
própria Conferência de Paris*, nunca os países se reuniram pra dizer: Vamos
fazer a coisa certa. Tudo bem que tem prazos que a gente pode reclamar, tem que
ser mais rápido, não era bem isso… claro, mas ele trás uma mudança de postura.
Mas acho que poderia ser pior, a gente tem chance.
** COP21 (Conferência das Partes/ONU): conhecida como
Conferência de Paris. Realizada em 2015, foi uma sessão global onde as decisões
foram tomadas para cumprir as metas de combate às mudanças climáticas.
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Público presente no Seminário Mata Atlântica |